Deputado Bordalo presta homenagem à memória de Paulo Fonteles



Nesta terça-feira (13), o deputado estadual Carlos Bordalo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa do Pará, fez um discurso na tribuna do parlamento em memória do deputado Paulo Fonteles, assassinado há 30 anos, no dia 11 de junho de 1987.

“No dia 11 de junho de 1987, quinta-feira, por volta das 11 horas, sentado no banco do carona em uma Chevy (BB 7072), que lhe levaria até Capanema, dirigida pelo motorista Antônio Lima de Souza, Paulo Fonteles aguardava o abastecimento do carro, em um posto da Shell, na BR-316, quando de Fusca de cor cinza, sem placas, desceu o pistoleiro que, dirigindo-se até a janela do carro onde estava, disparou três tiros e tirou a vida de um dos maiores dirigentes e defensores dos trabalhadores no Estado do Pará. Mas seus ideais de liberdade continuam vivos em todos aqueles que o conheceram.

Alcunhado de advogado-do-mato, Paulo Fonteles tornou-se o advogado do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Pará e da Comissão Pastoral da Terra, durante a ditadura brasileira, e deputado estadual pautando o problema da terra na região de Marabá, no sudeste do Pará. Sempre esteve nas listas de marcados para morrer.

A história prova que Paulo César Fonteles de Lima foi um revolucionário que lutou até seu último minuto de vida pela reforma agrária e pelo socialismo.
A vida de combate de Paulo Fonteles atravessou mais de três décadas de profundo compromisso com questões concernentes aos temas mais urgentes da nação brasileira, como a democracia, as liberdades políticas, a reforma agrária e o socialismo.

Segundo o jornalista Luiz Maklouf, “os três tiros que arrebentaram a cabeça do advogado comunista Paulo Cesar Fonteles de Lima sepultaram, mais do que o morto, sua forma de representar”. Em quase 20 anos de militância, Fonteles foi movido (e comovido) pelo combustível da paixão. Na política como na vida pessoal – e talvez especialmente nesta, onde o sublime sentimento encontra terra boa – o advogado exercitou, como poucos, o sentimento de estar permanentemente apaixonado.

No último dia 11 de junho de 2017, completaram-se 30 anos do assassinato deste mártir da terra. Até hoje os mandantes do assassinato de Paulo Fonteles não foram levados a julgamento e, como centenas de casos de pistolagem perpetradas pelo latifundiário, esse crime permanece impune”.

OUTRAS HOMENAGENS

No próximo dia 26 de junho, às 9h, a Assembleia Legislativa do Pará realizará uma sessão especial em homenagem ao legado de Paulo Fonteles, proposta pelo deputado Carlos Bordalo. Outras homenagens estão sendo organizadas pelo Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos, como o lançamento de um livro sobre o deputado, escrito pelo jornalista Ismael Machado, e uma exposição na Alepa, ambos programados para o próximo mês de agosto.

SOBRE PAULO FONTELES

A trajetória daquele que seria uma das mais contundentes vozes da luta contra o latifúndio e em defesa das liberdades públicas teve início quando o Brasil estava encarcerado pela quartelada de 31 de Março de 1964, que submeteu o país aos terríveis anos da Ditadura Militar, marcada pelas torturas e assassinatos, além da submissão aos interesses externos, notadamente estadunidenses.

O jovem Paulo Fonteles, oitavo filho do marítimo Benedito Lima e de Cordolina Fonteles – uma dona-de-casa que se tornou símbolo da luta conta a impunidade depois de seu assassinato, em 1987 – tomou parte nas manifestações que eclodiram pelo país quando do assassinato do estudante paraense Edson Luís, morto pela repressão política no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Naqueles dias a juventude brasileira ganhou pessoa e postura.

Seus relatos daquele período, pela força da sua poesia, revelam a permanente luta pela vida na forma da denúncia da bestialidade dos torturadores, que alcunhava como “cães que cavalgam soltos”. Ali, no famigerado Pelotão de Investigações Criminais (PIC) e depois na Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, um dos maiores centros de tortura do país, onde os bárbaros foram adestrados por víboras que insistiam em afirmar que os métodos da Gestapo estavam ultrapassados e que era necessário reinventar a Santa Inquisição. Naquelas duras condições, ao saberem da resistência armada da Guerrilha do Araguaia, no sul do Pará, tanto Paulo quanto Hecilda ingressam nas fileiras do Partido Comunista do Brasil.

Paulo Fonteles é eleito o primeiro presidente da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e nesse ambiente, em 1978, se coloca à disposição da Comissão Pastoral da Terra (CPT) para advogar para os camponeses do sul do Pará. Sua atuação como advogado da oposição sindical nas contendas contra o pelego Bertoldo Siqueira, na luta para retomar para as mãos dos lavradores o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Araguaia vai destilar o ódio em famigerados, como o Major Curió e o Ministro Jarbas Passarinho. Muitos dos instrumentos e quadros da repressão atuaram para derrotar a oposição e até a Rádio Nacional de Brasília fazia campanha para os caudatários do militarismo.

Em 1982 é eleito Deputado Estadual sob a consigna de “Terra, Trabalho e Independência Nacional” e no curso de sua atuação parlamentar é constantemente ameaçado e por diversas vezes denuncia, da tribuna da Assembleia Legislativa do Pará, as macabras listas de marcados para morrer onde figurava.

Em 1985, o coronel do Exército e latifundiário Eddie Castor da Nóbrega anuncia num dos principais jornais paraenses que iria atentar contra a vida do então deputado. Fonteles, no mesmo jornal, responde que “se um coronel tem a ousadia de ameaçar de morte um deputado abertamente, o que este senhor não faz com os trabalhadores rurais de sua fazenda”.

Em 11 de Junho de 1987, todas as ameaças se confirmam e, no final da manhã daquele dia, é assassinado a mando da União Democrática Ruralista (UDR) na região metropolitana de Belém. A ação que atentou contra a vida de Paulo Fonteles ocorreu no mesmo momento em que se votava, no âmbito da constituinte, o Capítulo da Terra. Até hoje os mandantes do assassinato de Paulo Fonteles não foram levados a julgamento e, como centenas de casos da pistolagem perpetradas pelo latifúndio, seu crime permanece impune o que revela o caráter do judiciário paraense e brasileiro. (Fonte: Instituto Paulo Fonteles de Direitos Humanos) 

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