O Solar da Beira e a vitória dos artistas

Por Carlos Bordalo

Gostaria de iniciar este artigo trazendo a reflexão do ministro da Cultura, Juca Ferreira, que afirma: “A cultura não é a cereja do bolo. No mundo contemporâneo é uma dimensão central do desenvolvimento”.

Está claro que os governos do PSDB no Pará perderam esta dimensão do desenvolvimento.

As únicas obras de valorização do nosso patrimônio cultural no Pará são e foram patrocinadas pelo Governo Federal. A restauração da Igreja do Carmo não foi suficiente para que o município de Belém tomasse qualquer iniciativa de devolver o esplendor a praça do Carmo, da mesma forma como a restauração que foi quase uma reconstrução do Mercado de peixe do Ver-o-Peso, não sensibilizou o Prefeito Zenaldo a tomar conta do 
abandonado Solar da Beira.

Por isso, numa iniciativa sem precedentes no Pará, um grupo de mais de 100 artistas ocuparam, em regime de revezamento, o Solar da Beira para denunciar e chamar atenção do prefeito Zenaldo e do Ministério Público Federal sobre o abandono e o descaso da gestão municipal com o patrimônio. O espaço estava tomado por usuários de drogas, completamente depredado, com energia cortada, infiltrações com mofo, assoalho ruindo, reboco exposto, enfim, um caos.

Diga-se que os artistas não foram os primeiros a ocupar o espaço. No momento da ocupação já haviam moradores de rua e animais que utilizavam o local como abrigo. O que irritou o prefeito de Belém foi a audácia do movimento que ousou constrange-lo pela sua incompetência e inoperância.

A verdade é que o Estado do Pará vive sem política cultural, tanto que os municípios da Região Metropolitana, em especial Belém e Ananindeua não têm seus sistemas municipais de Cultura implantados, da mesma forma como o Estado do Pará, pois em quatro anos e meio de gestão, não avançou na implantação do Sistema Estadual.

Como pode um governador falar em desenvolvimento, como pode o prefeito falar em potencial turístico, se não respeitam a dimensão cultural do desenvolvimento?

Mas a arte e a cultura venceram esta batalha, apesar da truculência da medida de desocupação concedida pela justiça. O governo Federal disponibilizará recursos para a recuperação do prédio, o movimento viraliszou o vídeo produzido durante os dias de ocupação, a petição para a instalação do sistema municipal de cultura alcançou seu objetivo de assinaturas, inúmeros outros artistas e a sociedade se solidarizaram e o prefeito foi constrangido a calar-se e abaixar a cabeça.

Sinceramente, espero que outras ocupações como esta aconteçam, que constranjam o prefeito Zenaldo, especialmente em Icoaraci, onde a antiga Estação Ferroviária está caindo aos pedaços, o Chalé Tavares Cardoso, que foi totalmente restaurado na Gestão do Partido dos Trabalhadores, está debaixo d’água.


Agora esperamos que o Governo do Estado siga o exemplo e implante o sistema estadual de Cultura, antes que os artistas o constranjam, tal como fazem os professores que acampam na Feira do Livro diariamente das 10 às 22h.

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