A exploração infantil disfarçada de adoção

Por Carlos Bordalo

No último sábado vimos emergir da penumbra da sociedade uma prática ainda muito difundida na sociedade paraense e que revela o pior lado de nossa cultura segregacional, amparada na singela diferenciação entre adoção e a expressão “tomar para criar”, que esconde a perversa face da exploração do trabalho infantil e que acoberta a exploração sexual de crianças e adolescentes.

Vimos que um casal, com suposto auxílio de um intermediário, publicou em jornal de grande circulação um anúncio no qual procura criança ou adolescente para trabalhar como babá de uma outra criança:

“precisa adotar uma menina de 12 a 18 anos que Resida, para cuidar de uma bebê de 1 ano que possa morar e estudar...”

Antes de tudo, o anúncio revela que é natural para algumas pessoas que existam duas infâncias: a uns é garantido o direito de brincar, estudar e ser cuidado, a outras é facultado pela suposta bondade alheia estudar desde que more com terceiros e cuide de outra criança de categoria superior.

Tal como vimos no Blog da jornalista Franssinete Florenzano o caso não é exceção, num grupo do facebook, chamado “Bazar, compras, vendas e trocas – Marabá” uma outra pessoa propõe a mesma prática “quero uma menina que precise de ajuda financeira para morar comigo, ... se for menor de idade pretendo por na escola, levar e buscar, vou tratar como filha...”

As duas propostas não são adoções, não podem sequer ser equiparadas, uma vez que a adoção implica em que o adotado passe a ter o status de filho legítimo alcançando todos os direitos dos filhos consanguíneos do casal inclusive sobre os bens do casal adotante. De fato trata-se de mera exploração de criança ou de adolescente.

Vimos na Assembleia Legislativa, o desenvolvimento de duas  Comissões Parlamentares de Inquérito que abordaram temas nos quais esta prática de “adoção” era usada para aliciar menores, seja para a exploração sexual, seja para a exploração do trabalho infantil.

Na CPI do Tráfico Humano vimos que a justificativa de uma vida melhor para a criança ou para o adolescente encobria redes nacionais e internacionais de tráfico de pessoas para os diversos fins.

Da mesma forma na CPI da Pedofilia convites para trabalhar em “casa de família” escondiam a perversidade da exploração sexual de crianças e adolescentes, totalmente entregues a violência sexual perpetrada por estes algozes da infância.

É triste que o parlamento tenha gastado dinheiro público investigando estes assuntos, tenha produzido relatórios contundentes, com inúmeras recomendações para que os outros poderes do Estado possam coibir estas práticas e nada tenha sido feito até então.

Meu pronunciamento na Sessão Ordinária desta terça-feira, na Tribuna da Alepa, teve como tema esses escabrosos anúncios nos jornais. Veja:


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