Carta ao Secretário de Educação Helenilson Pontes

Publico neste espaço, a indignação de um professor da rede pública do Estado, diante da grave situação em que se encontra a educação no Pará. 

Caro Secretário,
Sinto-me na obrigação de me manifestar sobre tudo que tem acontecido desde o início da greve deflagrada no dia 25 de Março. Mesmo consciente da possibilidade de futuras retaliações, sinto-me na obrigação de me posicionar acerca de acontecimentos que considero lamentáveis, que em nada acrescentam no diálogo sempre conturbado governo/professores.

Primeiramente, manifesto meu total repúdio e indignação a quem chama os professores e demais trabalhadores da educação de “vagabundos”, “Trapaceiros”, “Ladrões de merenda escolar”, e outros adjetivos que o bom senso não me permite colocar aqui. 

Estendo, também, a minha indignação ao senhor, Secretário, pois, como nosso líder, deveria nos conduzir em um projeto de educação que mude a realidade deste estado e não permitir (ao não se manifestar) que nossa imagem seja enxovalhada perante a sociedade, numa clara tentativa de nos desqualificar enquanto profissionais. Já tive alguma experiência em gestão, privada e pública. Inclusive neste governo ao qual o senhor serve, e nunca, nunca mesmo, permiti ofensas a meus subordinados. Críticas sim, ofensas jamais.

Em segundo lugar, gostaria de lhe esclarecer e afirmar que esta greve não é só do sindicato, como já ouvi o senhor pronunciar. Esta greve é de professores, técnicos, vice-diretores, diretores e até de gestores de URE e USE, pois todos, eu digo TODOS, estão sem condições de trabalho, e isto inclui os funcionários da sede da SEDUC. Contudo, as cobranças sobre nós são cada vez maiores. Mais e mais projetos novos nos são impostos a cada dia e vão se somando a nossa atribulada rotina. 

O mais incoerente é que esses projetos não trazem com eles as condições necessárias para que sejam implantados. Mesmo assim, eles acabam de uma maneira ou de outra andando, o senhor sabe por que secretário? Pela boa-vontade dos “vagabundos” e “trapaceiros” que às vezes tiram do próprio bolso para bancar as despesas que estes projetos geram. Um bom exemplo disso são os professores de ensino médio das escolas de tempo integral, que fazem coleta para comprar tempero, pois caso contrário os alunos dessas escolas não almoçariam.

O terceiro ponto que tenho a tocar é ainda mais grave, é sobre a lotação. Ouvi o senhor dizer em uma entrevista, que temos 23.000 professores na rede e somente 11.000 em sala de aula e que os outros 12.000 o senhor não sabe onde estão. Secretário? Como o senhor não sabe onde estão? O senhor tem a seu serviço um sistema de lotação que indica onde cada servidor da SEDUC está lotado. Mas, eu posso lhe adiantar algumas coisas para tentar lhe ajudar:
I)                    Muitos estão cedidos para outras instituições;
II)                  Muitos estão de licença médica;
III)                Alguns estão de licença aprimoramento;
IV)               Vários estão lotados em espaços pedagógicos como, bibliotecas, salas de informática e laboratórios multidisciplinares.

Ainda sobre lotação, gostaria de comentar algo lamentável que ouvi, nesta mesma entrevista que o senhor concedeu. Algo sobre uma “Máfia de carga horária” instalada na SEDUC. Isto é Ridículo! Além de ofensivo.

Sendo assim, são mafiosos os professores, os diretores, os gestores de USE e URE e os funcionários do setor responsável pela lotação. O professor não tem o poder de se lotar em turma nenhuma, Secretário. Ele é lotado, ou seja, os superiores fazem este pedido junto a CODES.

Concordo que existem más práticas dentro da rede que devem ser combatidas, mas estamos longe de ter uma máfia sistematizada. O que existe, de fato, dentro das escolas é NECESSIDADE. E é por conta dela que um professor fica com extrapolação de 240, 280 e às vezes até 300 horas de trabalho.

Lembro-lhe que apontar tantos desmandos administrativos dentro da Secretaria de Educação é, em última análise, criticar o próprio governador, pois todas as gestões anteriores que, por essa secretaria passaram, foram indicações dele. Então é dele também a responsabilidade.

Encerro lhe fazendo um apelo: ouça as bases, Secretário. Não se atenha somente ao que dizem seus assessores imediatos. Ouça professores, diretores e gestores, separadamente, e sem a presença de secretários adjuntos, diretores e coordenadores.

Não se esqueça de ouvir, também, os técnicos da sede da SEDUC, pessoas trabalham muito, trabalham longe, trabalham sem condições e são pouco reconhecidas.
Juntos somos mais fortes e podemos mudar a situação lamentável que se encontra a educação neste estado.

George Castro
Ex-diretor do ensino médio e educação profissional – SEDUC/PA
Supervisor do Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio - PNEM
Professor da rede estadual de ensino


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