Jornal americano The Washington Post publica reportagem sobre chacina em Belém e cita CPI das Milícias


Leia a reportagem traduzida pelo Blog

Depois do assassinato de policial que virou criminoso, massacre por vingança deixa cidade Brasileira dividida.

Por Dom Phillips 7 De Março, 7:30h
TERRA FIRME, BELÉM, Brasil —A esquina onde Eduardo Chaves, 16 anos, foi assassinado fica a apenas poucas centenas de metros de uma Unidade Integrada Propaz nessa favela pobre mais movimentada. Mas apesar disto nenhum policial interveio em 4 de novembro quando ele foi executado friamente por um comboio de homens mascarados em motos e carros. Ele foi um dos dez garotos e jovens mortos naquela noite.
Raul, parente próximo, tentou salvar o garoto quando os assassinos o abordaram. “Eu fiquei corri para ajuda-lo” disse Raul, que preferiu omitir seu verdadeiro nome. Ele foi ameaçado com um tiro em cima da sua cabeça. Uma pessoa passando tirou ele do caminho e ele ouviu mas não viu os tiros que deixaram Eduardo numa poça do próprio sangue. Raul disse que ele foi deixado com “desespero, lágrimas e tristeza”
Um inquérito que foi concluído em 30 de janeiro pela Assembleia Legislativa do Estado do pará, cuja capital é Belém afirmou que a policia permitiu um massacre que foi anunciado antecipadamente. As ramificações ainda estão reverberando na cidade Amazõnica de 1,4 milhão de habitantes onde certas questões estão sem resposta sobre a epidêmica violência Brasileira — 56.000 pessoas foram mortas em 2012 – e o papel dos mal pagos policiais atuam nos dois lados da fronteira entre o crime e a lei.
O massacre foi deflagrado duas horas antes pela morte de Antonio Figueiredo, Cabo do policiamento ostensivo do Pará, que estava de uma longa licença médica, sendo reformado e enfrentando dois inquéritos por homicídio. Cabo Pet, ou Pety, como Figueiredo era conhecido, comandava um grupo criminoso e vicioso, da favela do Guamá que fica no lado, e que incluía policiais militares.
Sua morte incendiou seus parceiros policiais que usaram as redes sociais. “Amigos nosso irmãozinho PETY, o Cabo Figueiredo Figueiredo, acabou de ser assassinado no Guamá. Eu estou indo, Eu espero contar com o máximo de amigos, vamos dar a Resposta”, Sgt. Rossicley Silva, antigo colega de Figueiredo em grupo tático da policia e presidente da Associação dos Praças da Policia Militar do Pará, escreveu no Facebook. Silva falou ao The Washington Post que seu post foi mal interpretado e preferiu não fazer mais comentários sobre o assunto.
Enquanto 0s alarmes do massacre reverberaram na Terra Firme no serviço de celular WhatsApp, Eduardo e sua namorada foi buscar sua filhinha em seu apartamento. Ela foi poupada. Ele não.
“Esta ação de milícia no bairro da Terra Firme aconteceu com a total complacência, proteção e garantia... da policia militar da área”, disse o Deputado Estadual Carlos Bordalo, que conduziu a Comissão Parlamentar de Inquérito. “Viaturas da polícia providenciaram suporte logístico. Os carros da polícia pararam os feridos impedindo que recebessem ajuda de fora.”
Baseado em investigações previas e relatos anônimos de testemunhas e policiais, o relatório concluiu que pelo menos 5 milícias operam no Pará, e são responsáveis por massacres desde 1994 onde policiais estão envolvidos e em alguns casos estão presos.
Parece uma romance tropical de James Ellroy. Milícias oferecem segurança privada ao comércio local, incluindo assassinatos por encomenda e execuções de criminosos conhecidos, e na Guamá elas também queriam controlar o trafico de drogas.
A policia está conduzindo suas próprias investigações. Gen. Jeannot Jansen, Secretário de Estado de Segurança Pública e Defesa Social, disse que Figueiredo foi um bom policial que se tornou mau. “Ele tinha uma folha de serviço excelente até um determinado momento, depois ele se envolveu com pessoas que eram provavelmente parte da criminalidade” disse Jansen.
Jansen disse que não pode confirmar a existência de milícias.
“Indícios existem. É por isso que existe a investigação” disse. “Existem certas indicios que nos permitem supor a participação de policiais? Sim, existem.”
E se for possível provar, ele diz, “serão punidos.”
Alguns, em Belém, consideravam Figueiredo uma espécie de homem da lei do Velho Oeste que fazia serviços desprezíveis para que a sociedade pudesse ficar segura. Numa manhã recente, dois homens descamisados sentavam na rua onde Figueredo morava, perto da esquina do ponto de moto táxi onde Figueiredo foi morto.
“Eu gostava muito dele”, disse um deles, falando na condição de ficar anônimo. Ele apontou para a câmera de segurança colocada alto no poste de luz. Ele colocou essa câmera ali” disse. “Havia menos crime. Eles o respeitavam. Os bandidos não faziam nada.”
Outros celebraram sua morte soltando fogos de artificio. “Esse Pet era conhecido como uma pessoa extremamente violenta”, disse uma parenta de Bruno Gemaque, outra vítima do massacre, de 20 anos, falando também na condição de ficar anônimo. “Se ele botava na cabeça que alguém era bandido ele iria atirar e matar.”
Gemaque foi morto em frente a sua namorada. Ele estava dando carona de bicicleta a ela quando o esquadrão da morte os prendeu. “Eu não consegui chorar de tanta angústia”, disse a parenta. “Bruno era uma pessoa muita feliz.”
A frase “bandido bom é bandido morto” é frequentemente usada no Brasil para justificar mortes cometidas por policiais. Ainda segundo um relatório policial confidencial visto pelo The Post, apenas uma das vítimas estava envolvida em atividades criminosas. Parentes de 4 das vítimas afirmam que elas eram inocentes.
“Ele não tinha inimigos”, disse uma parenta de Márcio Rodrigues, 22, que foi atirado pelas costas quando a matança se aproximava de seu fim. Outro parente próxima da vitima Allersonvaldo Carvalho Mendes, 37, disse que ele tinha dificuldades de aprendizado e consequentemente não dava ouvidos aos alertas de ficar fora das ruas.
Luiz Passinho, soldado da policia militar, disse que muitos policiais fora de serviço fazem segurança privada tal como a milícia de Figueiredo oferecia. “É ilegal, mas tolerado por que inibe as demandas salarias”, ele diz.
Infeliz com o baixo salário e as condições ruins de trabalho, Passinho juntou-se numa greve de 2014 e é um de 41 praças enfrentando processos correcionais internos. “O que alimenta a milícia é esta insatisfação”, ele disse. “Eles buscam aquele policial que precise de renda... que esta se sentindo inseguro, aquele policial está revoltado pela morte de um camarada.”
Ao contrário do Rio de Janeiro, onde em 2008 a Assembleia Legislativa do Rio debruçou-se sobre este problema, o termo “milícia” era pouco comum no Pará antes de novembro, disse Eliana Fonseca, Ouvidora do Sistema de Segurança Pública. Os assassinatos aterrorizaram a sociedade. Por dias depois da chacina muitos permaneceram em suas casas enquanto a cidade ficava paralisada com “uma reação de medo, de insegurança” ela disse, “como se estivéssemos numa sociedade onde tudo se pode.”

Fonseca disse que milícias como a de Figueiredo continuam operando e matando mas com menos intensidade — e mais notoriedade. Agora todo mundo sabe o que milícia significa.

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